sábado, 11 de agosto de 2018

Cristianismo combina com marxismo?


O vegetarianismo nos escritos e na experiência de Ellen G. White

O tema da mensagem de saúde é um dos assuntos mais controvertidos na Igreja Adventista. Mesmo em uma análise superficial, prontamente se percebe dois grupos: extremistas que vivem como se a reforma de saúde fosse o aspecto mais importante da experiência cristã, e um grupo maior que considera esse importante ponto da mensagem adventista apenas um anexo sem importância para a vida do cristão. 
Nesse conflito, o vegetarianismo está entre os temas mais discutidos. Encontrar a melhor maneira de abordar o assunto não é tarefa simples, especialmente pelas diferenças culturais, sociais e econômicas que existem no mundo. Ellen G. White foi a principal voz no adventismo sobre a mensagem de saúde, e seus livros estabeleceram a base para o estilo de vida adventista. Portanto, compreender e interpretar corretamente o que ela escreveu é o caminho mais coerente e seguro. 
Adventismo e reforma de saúde
O movimento da mensagem de saúde adventista teve como base a grande corrente americana de reformas sanitárias entre os anos 1800 e 1850. Essas reformas criaram as condições necessárias para a compreensão adventista da saúde, conferindo-lhe alto grau de relevância já nos primeiros anos da denominação.1 Em 1848, quatro anos após sua primeira visão, Ellen G. White recebeu as primeiras informações sobre a mensagem de saúde. Ela viu que tabaco, chá e café eram prejudiciais e deveriam ser completamente abandonados.2 
No entanto, sua mais importante visão sobre saúde ocorreu em 6 de junho de 1863, em Otsego, Michigan. Seu conteúdo foi relatado em 16 páginas que descrevem a essência da mensagem adventista de saúde. Entre os muitos princípios apresentados, os mais importantes foram: (1) os que não controlam o apetite tornam-se intemperantes; (2) bolos, tortas e pudins muito substanciosos são prejudiciais; (3) a carne de porco não deve ser consumida em nenhuma circunstância; (4) fumo, chá e café devem ser abandonados; (5) comer entre as refeições prejudica o estômago; (6) cuidar da higiene do corpo e da casa; (7) o consumo de carne é prejudicial ao organismo; e (8) fazer bom uso dos oito remédios da natureza.
Apesar das orientações de Ellen G. White não serem uma completa novidade no contexto das reformas do século 19, a relação da saúde com a espiritualidade constitui o grande diferencial de seus ensinos. A mensagem de saúde estava inserida em um sistema de doutrinas chamado de a verdade presente pelos pioneiros adventistas.4 Em 1900, a autora escreveu: “A verdade presente repousa na obra da reforma de saúde tanto quanto nos outros aspectos do evangelho.”5 Para ela, o cuidado da saúde “não é um apêndice desnecessário à verdade, é uma parte da verdade”.6 
Esse conceito integrado foi fundamental para formar o estilo de vida adventista. Por isso é importante estabelecer uma conexão entre a mensagem de saúde e a espiritualidade. Uma das citações de maior destaque que evidencia essa ligação foi publicada em 1867: “Foi-me mostrado que a reforma de saúde faz parte da mensagem do terceiro anjo, e está tão intimamente ligada a ela como o braço e a mão estão ao corpo.”7 
O vegetarianismo nos escritos de Ellen G. White
O contexto apresentado quanto à reforma de saúde serve como base para compreender a posição de Ellen G. White sobre o uso da carne. Ela nunca tratou desse assunto de forma isolada, ainda que seus pontos de vista a respeito de uma dieta vegetariana sejam vastos. Em seus escritos, o controle do apetite, inclusive a questão de comer carne, está relacionado ao princípio central de “manter nosso corpo na melhor condição de saúde”.8 
O tema da carne foi apresentado pela primeira vez à autora na visão de 1863. Os principais conceitos relacionados ao alimento cárneo também foram recebidos nessa ocasião. A carne de porco foi condenada como imprópria para o consumo.9 Além disso, a visão orientou para a abstinência de outros tipos de carne, dando preferência ao vegetarianismo. É importante esclarecer que o sentido da palavra “carne” usada por Ellen G. White quase sempre se refere à carne vermelha, uma vez que os peixes são tratados como um tema à parte.10 
No ano seguinte, com a publicação do quarto volume de Spiritual Gifts, a autora passou a insistir na adoção de uma dieta sem carne. Ela declarou que: (1) o alimento ideal de Deus para Suas criaturas está no Éden; (2) o Senhor permitiu que se comesse carne após o dilúvio para diminuir a vida do homem; (3) na peregrinação do deserto, Ele não proibiu a carne, mas proveu um alimento melhor; (4) a carne condimentada produz um estado febril e contamina o sangue; (5) quem consome muita carne não apreciará uma alimentação saudável de imediato; (6) crianças que comem carne favorecem as tendências animais; e (7) a carne de muitos animais está enferma devido às condições precárias em que eles são mantidos antes de serem abatidos.11 
Anos mais tarde, Ellen G. White continuou a escrever sobre os malefícios do regime cárneo, e apontou que ele: (1) afeta a atividade intelectual (1890);12 (2) prejudica a capacidade mental para entender a Deus e a verdade (1897);13 (3) debilita as faculdades físicas, mentais e morais (1901);14 (4) desperta o desejo de consumir bebidas alcoólicas (1901);15 e (5) aumenta a possibilidade de contrair enfermidades (1905).16 Em um dos seus mais importantes livros sobre saúde, ela também alertou sobre outro aspecto que raras vezes é mencionado. O regime cárneo “envolve crueldade para com os animais [...] criaturas de Deus”17 e, também por isso, seu consumo é objetável. 
Ao longo de seu ministério, as advertências de Ellen G. White sobre a carne se tornaram mais enfáticas. Ela reconheceu que a qualidade da carne estava cada vez pior. Em 1905, escreveu que “a carne nunca foi o melhor alimento; seu uso agora é duplamente objetável, visto as doenças nos animais estar crescendo com tanta rapidez”.18 
No entanto, por mais que Ellen G. White advogasse fortemente em favor da dieta vegetariana, ela não insistia nisso para todas as pessoas em todos os lugares.19 É importante admitir que havia exceções que ela mesma experimentou em sua vida pessoal. No fim de 1868, a autora escreveu ao esposo de uma senhora muito doente que teria sido melhor comer uma pequena porção de carne que sentir um profundo desejo por ela.20 Ela também recomendou cautela quanto ao deixar a carne: “Ninguém deve ser solicitado a fazer abruptamente a mudança.”21 Para Ellen G. White, o vegetarianismo jamais seria uma prova de comunhão entre os membros da igreja.22 
Já no fim da vida, em 1909, a escritora registrou o que pode ser entendido como o resumo de sua ideia em relação ao consumo de carne: “Não estabelecemos regra alguma para ser seguida no regime alimentar, mas dizemos que nos países em que há muita fruta, cereais e nozes, os alimentos cárneos não constituem alimentação própria para o povo de Deus.”23 Assim, por mais que não exista uma regra fixa quanto a uma dieta particular, está claro que onde e quando for possível, o povo de Deus deve preferir comer “frutas, cereais e verduras, preparados de forma simples”.24 
A experiência pessoal de Ellen G. White 
Alguns criticam Ellen G. White por não ter vivido a mensagem de saúde como ela mesma propôs em seus escritos quanto ao comer carne. No entanto, um estudo cuidadoso de sua biografia aponta que a autora foi fiel e coerente às instruções que recebeu. Ela afirmou que, depois da visão de 1863, eliminou de imediato a carne de seu menu diário, mas isso não significaria que ela não comeria mais carne.25 Em 1933, William White escreveu a George Starr que a família White havia sido vegetariana, mas não totalmente abstêmia de carne.26 Apesar de seu vegetarianismo, o consumo esporádico de carne podia acontecer devido a uma viagem longa ou quando a cozinheira não sabia preparar comida vegetariana.27 
Foi somente em 1894 que Ellen G. White decidiu que não comeria mais carne, nem mesmo ocasionalmente. Ela relatou: “Desde a reunião campal de Brighton (janeiro de 1894) bani absolutamente a carne da minha mesa.”28 A autora sempre demonstrou bom senso quanto ao consumo de alimento cárneo e foi tolerante a seu uso ocasional até quando entendeu que comê-lo seria demasiado prejudicial. Foi a partir desse período que suas advertências mais sérias contra a carne foram escritas. 
Conclusão 
Em resumo, pode-se afirmar que os escritos de Ellen G. White nos ensinam que a carne deve ser evitada nos lugares em que há abundância de frutas, cereais e verduras. No entanto, é preciso cautela, pois não se pode descartar o alimento cárneo abruptamente, sem prover adequada substituição nutricional. A carne não é um alimento saudável e pode trazer prejuízos em nossa relação espiritual com Deus. 
Ellen G. White foi fiel a esses princípios e sempre advogou bom senso e cuidado com extremismos. Em 1904, ela afirmou: “Tenho melhor saúde, não obstante achar-me com setenta e seis anos de idade, do que tinha em meus tempos juvenis. Dou graças a Deus pelos princípios da reforma de saúde.”29 
Alberto Tasso Barros (via Revista Ministério

Referências 
1 George W. Reid, A Sound of Trumpets (Washington, D.C: Review and Herald, 1982), p. 22. 
2 James White, “Western tour: Kansas camp meetting”, Review and Herald, 8/11/1870, p. 165. 
3 Herbert Douglass, Mensageira do Senhor (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), p. 283, 284. 
4 Alberto R. Timm, O Santuário e as Três Mensagens Angélicas, 6ª ed. (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2016), p. 123-131.
5 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, v. 6 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 327. 
6 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, v. 1 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 546. 
7 Ibid., p. 486. 
8 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, v. 2 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 65. 
9 Ron Graybill, “The development of adventist thinking on clean and unclean meats”, < https://goo.gl/FecV4K>. 
10 Andrés Afonso Tovar Galarcio, “Análisis de citas controversiales sobre el consumo de la carne en escritos de Ellen G. White: un estudio históricocontextual” (dissertação de mestrado, Universidade Peruana União, 2016), p. 56. 
11 Ellen G. White, Spiritual Gifts, v. 4, p. 120-150. 
12 Ellen G. White, Conselhos Sobre o Regime Alimentar (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2007), p. 388. 
13 Ibid., p. 383. 
14 Ibid., p. 268. 
15 Ibid. 
16 Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), p. 313. 
17 Ibid., p. 315. 
18 Ibid., p. 313. 
19 Denis Fortin, Jerry Moon, Michael W. Campbell e George R. Knight, eds. The Ellen G. White Encyclopedia (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2013), p. 1247. 
20 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, v. 2 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2015), p. 384. 
21 Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 317. 
22 Ellen G. White, Conselhos Para a Igreja, p. 240. 
23 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, v. 9 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2015), p. 159. 
24 Ellen G. White, Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 355. 
25 Ibid., p. 482. 
26 Herbert Douglass, Mensageira do Senhor, p. 316. 
27 Denis Fortin, Jerry Moon, Michael W. Campbell e George R. Knight, eds. The Ellen G. White Encyclopedia, p. 1247. 
28 Ellen G. White, Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 488. 
29 Ibid., p. 482.

Adolescentes, dependência tecnológica, depressão e comportamentos autolesivos

A adolescência é uma das etapas da vida em que o ser humano se vê frágil diante das grandes e bruscas mudanças. Essa vulnerabilidade, quando não bem administrada, tem resultados emocionais, que, por vezes, geram certos comportamentos. Um deles é o comportamento autolesivo, caracterizado por agressões físicas ou emocionais que a pessoa causa a si mesma. Diversos cenários colaboram para essa prática, mas o que mais chama atenção para a realidade de hoje é a dependência da tecnologia. Segundo estudos, a forte ligação entre o indivíduo e a tecnologia faz com que haja um distanciamento entre as pessoas, abrindo brecha para atitudes extremas, como a autolesão. Para entender mais sobre o assunto, a Agência Sul-Americana de Notícias conversou com a psicóloga e mestre em psicologia Carolina Raupp, que desenvolveu estudos específicos sobre este tema em sua dissertação.
A que principais conclusões você chegou, em suas pesquisas, quanto às razões pelas quais adolescentes praticam o chamado comportamento autolesivo (CA)?
Pesquisadores encontraram diferentes razões para a prática dos CA. Na pesquisa que desenvolvi, a fala dos adolescentes indicou que um dos principais motivos era a dificuldade em lidar com emoções avassaladoras como a tristeza e a raiva. Já em relação à percepção delas quanto aos fatores ambientais, problemas familiares foram, também, associados como causa.
Esse comportamento está associado principalmente à depressão, certo?
Sim. A depressão pode ocorrer em todas as etapas da vida, mas nas etapas de transição e na adolescência existe maior vulnerabilidade. Um estudo identificou que a psicopatologia mais prevalente, associada aos comportamentos autolesivos, foi a depressão. Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental, mais de 90% das pessoas que cometem suicídio apresentam depressão, e este pode acontecer quando se intensifica a prática de autolesões.
E quanto a fatores de instabilidade e relacionamentos familiares ruins, especialmente entre os pais e os adolescentes? O que você detectou nessa área?
Os dados obtidos por meio da pesquisa reforçaram que a percepção da baixa qualidade das relações familiares, assim como a sensação de pouca coesão, são fatores de risco para os CA. A falta de manifestações de afeto e de apoio emocional, bem como a presença de conflito familiar, também foram percebidos como fatores facilitadores para a prática do comportamento.
O que você pode falar a respeito da chamada dependência tecnológica, muito comum nessa faixa etária, atualmente?
O celular é o objeto mais oferecido para acalmar o bebê, antes mesmo da mamadeira e da chupeta, ou seja, desde cedo os pequenos não estão sendo ensinados a lidar com a frustração, a administrar as próprias emoções. Nossa população mundial é de aproximadamente 7 bilhões de pessoas. No ano de 2016, havia o registro de 6 bilhões de celulares, ou seja, há celulares até onde a água potável não chegou. O uso excessivo de tecnologias leva a um estado de fluxo, um estado alterado de consciência. É fácil se tornar dependente e, consequentemente, elevar os problemas interpessoais, especialmente algum tipo de deterioração da vida familiar.
A dependência tecnológica tem relação com o comportamento autolesivo?
A dependência tecnológica facilmente pode gerar um afastamento entre as pessoas (autismo digital). É fácil utilizar eletrônicos como uma rota de fuga ou evitação, da mesma forma que pode ocorrer com os CA. Um estudo da Universidade de Cardiff, Reino Unido, descobriu que as pessoas que se autolesionam não apenas usam as mídias sociais para compartilhar imagens das lesões. Alguns usam as imagens como parte do “ritual” de autolesão. Outro estudo desenvolvido no Reino Unido, na Universidade de Oxford, evidenciou que há aumento de risco para o suicídio e autolesão entre os jovens que passam mais horas conectados na internet. Além disso, nestes casos se observaram métodos mais violentos de autolesão.
Esses quadros de autolesão podem levar um número considerável de adolescentes ao suicídio? E como isso se dá?
Em uma investigação realizada em uma amostra clínica de adolescentes com depressão, identificou-se que um histórico de CA antes do tratamento foi um dos maiores preditores para posteriores tentativas de suicídio. Alguns autores consideram os CA em um contínuo de um espectro suicidário, envolvendo um processo de dessensibilização em direção ao suicídio. Nem sempre acaba assim, mas existe uma elevação do risco nestes casos.
Que orientações você dá para os adolescentes e para os pais quanto a esse problema?
Aos adolescentes: observar se houve progressiva mudança no humor, diminuição no interesse ou prazer em fazer as coisas, cansaço, alteração no apetite e/ou sono, vontade de se isolar dos amigos e familiares, vontade de morrer etc. Procurar, então, alguma pessoa confiável para conversar e pedir ajuda. Caso se autolesione, encontrar estratégias de redução de danos para lidar com os impulsos. Por exemplo, segurar gelo até derreter quando o impulso para se machucar se tornar mais intenso.
Aos pais: olhar nos olhos, buscar formas de conectar coração a coração, conversar. Grande parte dos filhos atuais são filhos órfãos de pais vivos, que estão mais conectados com as redes sociais, trabalho e com o cansaço que com o coração dos seus filhos. Amar é cuidar. Amor indisponível não previne nem cura.
Qual o papel das igrejas e da religião em algum tipo de trabalho de apoio?
Entre as pessoas que entrevistei e atendi, as que pararam de se autolesionar o fizeram por consideração ao pedido e/ou afeto de alguém. Poucas contavam com o apoio familiar desejado. Desta forma, elas podem encontrar nas igrejas alguém que as “enxergue”, as considere e que também ajude a promover os vínculos familiares. O amor e a atenção oferecidos pelas pessoas da igreja podem ser ferramentas importantíssimas para o processo de cura. Até mesmo porque este amor pode apontar para o amor de um Deus que as ama incondicionalmente, que as fez com um propósito, doador de esperança e que não as deixa sós nos momentos de maior angústia. Enfim, podem encontrar alguém que percebam que se importa.
Felipe Lemos e Mauren Fernandes (via ASN)

As crianças que morrem na infância serão salvas?

A possibilidade dessas crianças serem salvas parece, a primeira vista, descartada pelas afirmações de que “quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Marcos 16:16), e que, para crer, é necessário entender o evangelho (Romanos 10:12-15). Na tentativa de resolver esse dilema, a Igreja Católica e mesmo alguns reformadores (inclusive Lutero) argumentavam que Deus concede o “dom” da fé a um bebê que for batizado, sendo assim salvo da culpa do “pecado original” de Adão. Mas essa proposta é inaceitável, pois as Escrituras ensinam que os seres humanos herdam apenas a natureza pecaminosa, sem que lhes seja atribuída a “culpa” do pecado de Adão. Além disso, a Bíblia não recomenda a prática do batismo infantil nem reconhece o caráter sacramental desse rito.
No entanto, a experiência do ladrão que se converteu na cruz (Lucas 23:39-43) confirma que entre os remidos estarão pessoas que não tiveram condições de serem batizadas. Nessa categoria estão as crianças que morreram antes de atingirem a idade ideal para o batismo. A salvação das crianças é uma questão que transcende à mera questão do batismo. Se os pecadores são justificados unicamente pela fé em Cristo (Romanos 5:1 e 2; cf. João 14:6), como pode uma criança que não exerceu conscientemente tal fé ser justificada para a salvação? 
As declarações de Ellen White nos livros Mensagens Escolhidas, vol. 2, pp. 259 e 260 (tópico “As Crianças na Ressurreição”); Ibid., vol. 3, pp. 313-316 (capítulo “Perguntas a Respeito dos Salvos”); e Eventos Finais, pp. 253 e 254 (tópico “A Salvação de Criancinhas e Deficientes”) revelam pelo menos três conceitos fundamentais sobre a salvação de crianças que morreram em tenra idade. Um deles é que os filhos de pais crentes serão salvos, pois a fé dos pais é extensiva aos filhos que ainda não atingiram a idade da razão. É-nos assegurado que “a fé dos pais que creem protege os filhos, como sucedeu quando Deus enviou Seus juízos sobre os primogênitos dos egípcios” (Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 314). Os pais crentes podem ter a certeza de que esses pequeninos lhes serão devolvidos na gloriosa manhã da ressurreição. “Ao surgirem os pequenos, imortais, de seu leito poento, imediatamente seguirão caminho, voando, para os braços maternos. Reencontrar-se-ão, para nunca mais se separarem.” (Ibid., vol. 2, p. 260).
Outro conceito fundamental é que no Céu estarão também criancinhas cujos pais não serão salvos, e que elas serão cuidadas pelos próprios anjos até atingirem a estatura necessária para se manterem sozinhas. Ellen White declara que “muitos dos pequeninos, porém, não terão mãe ali. Em vão nos pomos à escuta do arrebatador cântico de triunfo por parte da mãe. Os anjos acolherão os pequeninos sem mãe e os conduzirão para junto da árvore da vida” (Ibid.).
Em contraste com a fé dos pais crentes que é extensiva aos filhos em tenra idade, não existe qualquer possibilidade de os pais incrédulos protegerem seus filhos desta forma. A salvação de tais crianças é, por conseguinte, um ato exclusivo da graça de Deus, a respeito do qual não é apropriado conjecturar. Um terceiro conceito fundamental é que “não podemos dizer se todos os filhos de pais descrentes serão salvos, porque Deus não tornou conhecido o Seu propósito a respeito desse assunto” (Ibid., vol. 3, p. 315). 
Ellen White esclarece também que, por ocasião da primeira ressurreição, “todos saem do túmulo com a mesma estatura que tinham quando ali entraram”, e que, durante o milênio, “os remidos crescerão até à estatura completa da raça em sua glória primitiva” (O Grande Conflito, pp. 644 e 645). Como, então, Ellen White pôde ver, em sua primeira visão, a presença de crianças ainda na nova Terra (ver Primeiros Escritos, p. 19)? É provável que as cenas dessa visão tenham sido descritas tematicamente em Primeiros Escritos, sem a mesma precisão cronológica que caracteriza o conteúdo de O Grande Conflito
Portanto, entre os salvos estarão os filhos que morreram em tenra idade cujos pais se salvarão, bem como outras criancinhas cujos pais se perderão. Durante o milênio essas crianças, juntamente com os demais remidos, crescerão até atingirem a estatura original da raça humana.
 
Alberto R. Timm (via Centro White)
 

Título original: Serão salvas as crianças que morreram antes de atingirem a idade da razão?

Os Sete Pecados Capitais na visão de Ellen G. White

Os conceitos incorporados no que se conhece hoje como os sete pecados capitais tratam de uma classificação de condições humanas conhecidas atualmente como vícios, que precedem o surgimento do cristianismo, mas que foram usadas mais tarde pelo catolicismo com o intuito de educar os seguidores, de forma a compreender e controlar os instintos básicos do ser humano e assim se aproximar de Deus.
A lista final, apresentada no século XIII, é a versão aprimorada de uma primeira versão, datada do século IV. Todo esse esforço em descrever defeitos de conduta tinha um motivo: facilitar o cumprimento dos Dez Mandamentos. A tradição católica considera que os setes pecados capitais dão origem a todos os outros pecados. A Bíblia não diz isso, mas concorda que são pecados e devem ser evitados. A seguir, vejamos os pecados capitais sob a ótica de Ellen G. White:
1. Gula
"Não estejas entre os bebedores de vinho nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência vestirá de trapos o homem." (Pv 23:20-21)
"Sobrecarregar o estômago é um pecado comum, e quando se usa demasiado alimento, todo o organismo é sobrecarregado. A vida e vitalidade, em vez de aumentar, diminuem. É assim como Satanás planeja. O homem utiliza suas forças vitais no desnecessário trabalho de cuidar de excesso de alimentos. Por tomar demasiado alimento, não apenas gastamos descuidadamente as bênçãos de Deus, providas para as necessidades da natureza, mas causamos grande dano a todo o organismo. Contaminamos o templo de Deus, que é enfraquecido e mutilado; e a natureza não pode fazer o seu trabalho bem e sabiamente, como Deus designara que fosse. A Palavra de Deus coloca o pecado de glutonaria na mesma categoria que a embriaguez. Os que isto fazem não são cristãos, não importa quem sejam ou quão exaltada seja sua profissão de fé. Comer demais é o pecado deste século." (Conselhos sobre o Regime Alimentar, pp. 131-142)
2. Avareza
"Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores." (1Tm 6:10)
"Não deves ser avarento, mas honesto contigo mesmo e com teus irmãos. A avareza é um abuso das beneficências de Deus. Seja qual for a vossa vocação ou posição, se acariciardes o egoísmo e a cobiça, sobre vós recairá o desagrado do Senhor. Não façais da obra e da causa de Deus uma desculpa para tratar de maneira avara e egoísta com qualquer pessoa, mesmo que estejais fazendo um negócio que se relacione com Sua obra. Deus não aceita coisa alguma no sentido de ganho que seja levado para o Seu tesouro por meio de transações egoístas." (Conselhos sobre Mordomia, p. 145)
3. Luxúria
"Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos." (Ef 5:3)
"Os pecados que atraíram a vingança sobre o mundo antediluviano, existem hoje. Aquilo que em si mesmo é lícito, é levado ao excesso. Multidões não se sentem sob qualquer obrigação moral de reprimirem seus desejos sensuais, e tornam-se escravos da luxúria. Os homens estão vivendo para os prazeres dos sentidos, para este mundo e para esta vida unicamente. A extravagância invade todas as rodas da sociedade. A entrega de todas as faculdades a Deus, simplifica grandemente o problema da vida. Enfraquece e abrevia milhares de lutas com as paixões do coração natural." (Patriarcas e Profetas, p. 62)
4. Ira
"Deixa a ira, abandona o furor; não te impacientes; certamente, isso acabará mal." (Sl 37:8)
"Os que, a qualquer suposta provocação, se sentem em liberdade de condescender com a zanga ou o ressentimento, estão abrindo o coração a Satanás. Amargura e animosidade devem ser banidas da alma, se queremos estar em harmonia com o Céu. Se condescendermos com a ira, a concupiscência, a cobiça, o ódio, o egoísmo ou outro pecado qualquer, tornamo-nos servos do pecado. Muitos consideram as coisas pelo seu lado mais escuro; engrandecem suas supostas ofensas, nutrem a ira, e são tomados de sentimentos de vingança e ódio, quando em verdade não tinham causa real para esses sentimentos. Resisti a esses sentimentos errados, e experimentareis grande mudança em vossas relações com os semelhantes." (Mente, Caráter e Personalidade vol. 2, pp. 516-523)
5. Inveja
"O ânimo sereno é a vida do corpo, mas a inveja é a podridão dos ossos." (Pv 14:30)
"A inveja não é meramente uma perversidade do gênio, mas uma indisposição que perturba todas as faculdades. Começou com Satanás. Ele desejou ser o primeiro no Céu e, como não alcançasse todo o poder e glória que buscava, rebelou-se contra o governo de Deus. Invejou nossos primeiros pais, tentando-os ao pecado, e assim os arruinou, e a todo o gênero humano. O invejoso fecha os olhos às boas qualidades e nobres ações dos outros. Está sempre pronto a desprezar e representar falsamente aquilo que é excelente. Os homens muitas vezes confessam e abandonam outras faltas; do homem invejoso, porém, pouco se pode esperar. Visto como invejar a alguém é admitir que ele é superior, o orgulho não tolerará nenhuma concessão. O invejoso espalha veneno aonde quer que vá, separando amigos, e suscitando ódio e rebelião contra Deus e o homem. Procura ser considerado o melhor e o maior, não mediante heroicos e abnegados esforços por alcançar ele mesmo o alvo da excelência, mas sim ficando onde está e diminuindo o mérito dos outros." (Testemunhos Seletos vol. 2, p. 19)
6. Preguiça
"O que trabalha com mão preguiçosa empobrece, mas a mão dos diligentes vem a enriquecer-se." (Pv 10:4)
"Foi-me mostrado que muito pecado é resultado da preguiça. Mãos e mentes ativas não acham tempo para dar ouvidos a toda tentação sugerida pelo inimigo; as mãos e os cérebros ociosos, porém, estão sempre em condições de ser controlados por Satanás. Quando não devidamente ocupada, a mente demora-se em coisas impróprias. É vil preguiça o que faz com que criaturas humanas olhem com desprezo os simples deveres diários da vida. A recusa a cumpri-los produz uma deficiência mental e moral que há de ser vivamente sentida algum dia. Em algum tempo, na vida do preguiçoso, sua deformidade aparecerá claramente definida. No registro de sua vida, acham-se escritas as palavras: Um consumidor, mas não produtor." (Conselhos para a Igreja, p. 197)
7. Soberba
"A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda." (Pv 16:18)
"A soberba é um terrível aleijão no caráter. 'A soberba precede a ruína'. Isto é verdade na família, na igreja e na nação. O Redentor nos adverte contra a soberba da vida, mas não contra sua graça e natural beleza. Sempre que a ambição e o orgulho são tolerados, a vida é maculada; pois o orgulho, não sentindo necessidade, cerra o coração para as bênçãos infinitas do Céu." (Profetas e Reis, p. 60).