domingo, 19 de maio de 2019

Sem especulação


A maneira certa de estudar as profecias relacionadas com o fim

O senso de iminência e expectativa é bíblico, mas é preciso fundamentar a esperança na revelação da Palavra de Deus



Nascido do sonho de ver Jesus voltar nas nuvens, o adventismo tem a escatologia em seu DNA. Contudo, essa ênfase não significa especulação a respeito do fim nem marcação de datas, e sim uma firme esperança com base nas promessas do livro sagrado. Pelo menos deveria ser assim. Devido à sua centralidade para nossa fé, a escatologia, tema da matéria de capa desta edição, foi objeto de dezenas de estudos apresentados numa grande conferência realizada em junho na cidade de Roma. Dentro desse espírito, veja sete regras úteis para entender melhor a mensagem bíblica sobre o futuro



1. Preste atenção na intertextualidade. Os autores do Novo Testamento fizeram intenso uso das profecias do Antigo Testamento. Por exemplo, o Apocalipse é um mosaico de citações, alusões e ecos de Daniel, Ezequiel, Isaías, Zacarias e outros profetas. Por isso, tente descobrir de onde vêm as ideias, as imagens e os ­símbolos do livro.


2. Examine o tipo de profecia. Como regra, as profecias clássicas são condicionais e locais, enquanto as profecias apocalípticas são incondicionais e universais. Se o foco dos profetas clássicos (como Isaías e Jeremias) era a transformação da realidade de sua época, a ênfase dos profetas apocalípticos (como Daniel e João) estava no cronograma divino para o mundo no tempo do fim.


3. Fique de olho na reinterpretação. Muitas promessas feitas a Israel são reinterpretadas no Novo Testamento e aplicadas ao povo de Deus reunido em torno do Messias. Em certos aspectos, o que era local passa a ser universal e o que era literal se torna espiritual. Essa universalização inclui o próprio conceito de Israel e da “terra” como herança do povo de Deus.


4. Mantenha o foco no fator central. Cristo é o centro de todas as profecias e a personificação do reino de Deus. Por isso, analise de que maneira o conteúdo da profecia se relaciona com a vida e o ministério Dele.


5. Considere o presente e o futuro. O Novo Testamento apresenta o reino de Deus em dois estágios (já e ainda não). O reino já foi inaugurado com a primeira vinda de Jesus, mas a consumação dele está no futuro, com a segunda vinda. É importante manter esse equilíbrio.


6. Evite a “atomização”. As profecias relacionadas com o fim do mundo não estão desconectadas da história da salvação. Portanto, considere o plano completo de Deus para a humanidade. A volta de Jesus não acontecerá num vácuo; ela está ligada a tudo que ocorreu antes.


7. Tire o olhar do calendário. Muitos grupos tentam marcar datas para a volta de Jesus e especulam quanto ao cumprimento dos últimos eventos, o que é um erro. Ao perceber os sinais, olhe para cima e aguarde Aquele que está voltando.


Sonhar com o fim e o novo começo faz parte da essência da nossa fé. O senso de iminência e expectativa é bíblico, mas é preciso fundamentar a esperança na revelação da Palavra de Deus. Embora muitos cristãos sejam movidos pelo sensacionalismo, escatologia de jornal pode ser pior do que ausência de escatologia. Por isso, escatologize da maneira correta.


MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista


(Editorial da edição de julho de 2018)


Fonte: http://www.revistaadventista.com.br/blog/2018/07/06/sem-especulacao/

O mal do século

Conheça dez passos que poderão ajudar você a lidar com a depressão



O número de pessoas com depressão ­aumentou assustadoramente nos últimos anos. Até algum tempo atrás, ela estava restrita às classes abastadas da sociedade, mas hoje afeta todas as camadas sociais, graças a vários fatores: democratização no acesso a alimentos processados e refinados, anteriormente “privilégio” dos ricos; dissolução do núcleo familiar, desestabilizando relacionamentos e gerando conflitos inter e intrapessoais; demandas e expectativas da vida moderna, em que estresse constante, competição desenfreada e consumo compulsivo causam uma gama de emoções difíceis de gerenciar.

Complexo e multifacetado como é o tema, não posso discutir aqui condutas terapêuticas ou correntes teóricas e filosóficas sobre o trato com a depressão, nem sua efetividade. Mas desejo mostrar o que você pode fazer por si mesmo:

1. Desenvolva espírito de gratidão. A mente é sensível à informação nova. Hábitos de pensamento adequados podem ser ensinados ao cérebro. Expressando gratidão, fruto de inevitável esforço para enxergar lados luminosos da vida, você inibe o principal combustível para a depressão: os pensamentos negativos. Não é apenas na física que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço/tempo. Você não precisa sentir gratidão para racionalmente descobrir motivos para mostrar-se grato.

2. Perdoe. Todos. Inclusive você mesmo. O perdão não muda o que aconteceu. Porém, há um presente e um futuro a ser vividos. Mágoas, abusos, ofensas e decepções do passado devem permanecer lá. Vire a página. Como? Perdoando. Esse é o modo mais eficiente de seguir em frente. “Feche a conta” através do perdão, remova o fardo dos ombros e recomece de maneira leve um novo dia.

3. Respire profundamente. Se não sabe fazê-lo, aprenda. O oxigênio é excelente antidepressivo. É tão precioso que ninguém poderia pagar por ele e, assim, é de graça. Caminhe em um lugar que lhe dê prazer, que canse seus músculos, que distraia sua mente, que o “alimente” com belezas, harmonias e estímulos para viver.

4. Não tenha pena de si mesmo. Nada de autocompaixão. Não se vitimize. Você precisa de autoestima adequada. Atribua-se o valor que você tem. Para isso, é claro, conheça-se bem.

5. Não se leve tão a sério. Ria de seus eventuais erros, acertos e dificuldades. Eles perdem muito do peso se você olhar para eles com olhos bem-humorados. Encontre companheiros com quem possa fazer (e achar) graça.

6. Estabeleça metas realistas. Conquiste alvos e congratule-se pelas vitórias. Aprenda com os insucessos circunstanciais.

7. Evite o consumo de produtos nocivos ao equilíbrio mental. Entre eles estão cafeína, cereais processados, açúcar refinado e adoçantes artificiais. Eles fazem oscilar seu humor (em geral, para pior), pois desequilibram seus hormônios e o estoque dos nutrientes de que você mais precisa, especialmente vitaminas do complexo B.

8. Tenha um mentor ou conselheiro. Pode ser um amigo que ajude você sem causar dependência. Num grupo de apoio mútuo, focalize a palavra “mútuo”: seja bom ouvinte e ajude o outro. Os dois saem da escuridão, não importa quem esteja guiando.

9. Conte com ajuda profissional. Discuta todas as questões com seu médico ou psicólogo, inclusive este artigo. Ele pode sincronizar estas dicas com seu caso específico.

10. Não se esqueça de Deus
. Embora nem sempre o entendamos, ele sempre nos entende. Ore, leia, medite, ouça sermões e música inspiradora. Além dos pensamentos, sentimentos e emoções, a mente possui um componente espiritual que busca a transcendência.


SILMAR CRISTO é médico, consultor e autor de vários livros sobre saúde e qualidade de vida


Sobre o mau uso de Ellen White


Por Davi Caldas


Um dos maiores entraves que muitas pessoas possuem para entrar na Igreja Adventista é Ellen White. Conheço algumas que ainda não se decidiram apenas por esse ponto. Já aceitaram sábado, mortalidade da alma, reforma alimentar, juízo investigativo, etc. Mas não conseguem crer em Ellen White.


Creio fortemente que isso se dá muito mais pelo mau uso dela por grande parte dos adventistas do que propriamente pelo que ela diz. Muitos adventistas cometem o erro de usá-la para resolver conflitos teológicos e a enfatizá-la quase como se seus escritos fossem uma segunda Bíblia. Alguns recorrem a Ellen White antes mesmo de irem à Bíblia, preferindo provar pontos de vista por seus escritos.


Ora, isso é um erro grave que a própria Ellen White condenava e que a doutrina adventista oficial também não endossa. As consequências são nefastas. A Sola Scriptura é solapada com essa postura. A Igreja perde credibilidade entre os protestantes. E a função de White é totalmente distorcida. Além disso, os que mantém essa postura de colocar White onde ela não deveria estar acabam por alimentar o grupo que está no extremo oposto: os adventistas que desprezam e descartam totalmente os escritos dela. Criamos um cenário de “ou 8 ou 80”. Isso não ajuda em nada a Igreja. Só atrapalha.


Qual deveria ser a postura correta em relação a esse assunto? Vou tentar explicar em poucas linhas. Começo com um silogismo:


    1) A essência dos ensinos de Ellen White é considerar a Bíblia como única regra de fé e prática, segundo a qual julgamos todas as coisas, estuda-la profundamente e praticá-la fielmente;
     2) Uma pessoa considera a Bíblia como única regra de fé e prática, segundo a qual julga todas as coisas, a estuda profundamente e a pratica fielmente;
     3) Logo, essa pessoa está seguindo a essência dos ensinos de Ellen White.


Se esse silogismo estiver certo, isso significa que uma pessoa não precisa, não deve e não pode usar Ellen White para resolver debates teológicos, ir até ela antes da Bíblia e trata-la como uma segunda Bíblia. Se o silogismo estiver certo, seguir Ellen White é ser essencialmente bíblico: é buscar a resposta para todas as questões na Bíblia, julgar tudo pela Bíblia (inclusive os escritos de Ellen White), ir sempre primeiro à Bíblia e usar Ellen White tão somente para enfatizar e clarear o que já existe na Bíblia. Em suma, seguir a essência de Ellen White é falar mais da Bíblia e menos de Ellen White. Mas o silogismo está certo? Vejamos o que a própria Ellen White diz a respeito:


“No trabalho público não torneis proeminente nem citeis o que a Irmã White tem escrito, como autoridade para apoiar vossas posições. Fazer isto não aumentara a fé nos testemunhos. Apresentai vossas provas, claras e simples, da Palavra de Deus. Um “Assim diz o Senhor” e o mais forte testemunho que podeis apresentar ao povo. Que ninguém seja instruído a olhar para a Irma White, e, sim, ao poderoso Deus, que dá instruções a Irmã White”. — Carta 11, 1894.


Ellen White entendia que seus escritos tinham o propósito de conduzir à Bíblia, de enfatizá-la, de tocar em assuntos esquecidos das Escrituras, de reforçar aquilo que o Senhor já havia dito, de estimular o estudo da Palavra, de refletir sobre ela, de criar gosto por sua leitura, de ser bíblico em todo o tempo. Assim, ela era apenas um canal para isso, um meio para um fim, não um fim em si mesmo. Não faria sentido, portanto, tentar provar posições por Ellen White. Até porque ela não queria ser crida só porque ela falou. Mas desejava que suas próprias palavras fossem julgadas à luz da Bíblia. Sobre isso ela diz em outra ocasião: “Se os [meus] Testemunhos não falarem de acordo com a Palavra de Deus, rejeitai-os. Cristo e Belial não se unem”. — Testimonies for the Church 5:691. Numa reunião de dirigentes da Igreja, ela afirma em 1901:


“Como pode o Senhor abençoar os que manifestam o espirito de ‘não me importa’, que os leva a andar em sentido oposto a luz que o Senhor lhes deu? Não solicito, porém, que acateis minhas palavras. Ponde a irmã White de lado. Não citeis outra vez as minhas palavras enquanto viverdes, até que possais obedecer a Bíblia. Quando fizerdes da Bíblia vosso alimento, vossa comida e vossa bebida, quando fizerdes de seus princípios os elementos de vosso caráter, conhecereis melhor como receber conselho de Deus. Enalteço a preciosa Palavra diante de vos neste dia. Não repitais o que eu declarei, afirmando: “A irmã White disse isto” e “a irmã White disse aquilo”. Descobri o que o Senhor Deus de Israel diz, e fazei então o que Ele ordena”. — Manuscrito 43, 1901. (De uma alocução a dirigentes de igreja na noite que antecedeu a abertura da Assembleia da Associação Geral de 1901.)


Parece bem claro a posição em que Ellen White se colocava e a posição que ela colocava a Bíblia. Os adventistas deveriam ser, acima de tudo, em primeiro lugar e em todo o tempo, bíblicos. A finalidade máxima de Ellen White era tornar todos bíblicos. No momento em que nos esquecemos disso, perdemos a essência dos Testemunhos de Ellen White. Sobre isso, ela explica:


“Recomendo-vos, caro leitor, a Palavra de Deus como regra de vossa fé e pratica. Por essa Palavra seremos julgados. Nela Deus prometeu dar visões nos “últimos dias”; não para uma nova regra de fé, mas para conforto do Seu povo e para corrigir os que se desviam da verdade bíblica. Assim tratou Deus com Pedro, quando estava para envia-lo a pregar aos gentios”.—A Sketch of the Christian Experience and Views of Ellen G. White, 64 (1851). Reimpresso em Primeiros Escritos, 78.


Note: Ellen White compara, em função, suas visões à visão que Pedro teve em Atos 10 dos animais impuros no lençol. A visão de Pedro não forneceu nenhuma verdade nova. Durante todo o Antigo Testamento, Deus afirmou não fazer acepção de pessoas, comprovou isso na prática levando a Palavra a diversos pagãos (Raabe, Rute, Naamã, Nabucodonosor, Dario, ninivitas, etc.) e convidou os outros povos a adorá-lo (Is 56:1-8, Zc 8:20-23, etc.). O sonho para Pedro serviu apenas para lembra-lo disso, impressioná-lo e fazê-lo abrir as portas da Igreja para os gentios. A visão conduziu à Bíblia. Pois Ellen White entendia que a função de suas visões e escritos era tão-somente essa. Ela não pretendia e não queria se tornar uma “nova Bíblia”. Aliás, essa foi uma acusação que ela mesma rebateu em sua época:


“O irmão J. procura confundir os espíritos, esforçando-se por fazer parecer que a luz que Deus nos concedeu por meio dos [meus] Testemunhos constitui um acréscimo a Palavra de Deus, mas com isto apresenta os fatos sob uma luz falsa. Deus houve por bem chamar por este meio a atenção de Seu povo para a Sua Palavra, a fim de conceder-lhes uma compreensão mais perfeita da mesma.


A Palavra de Deus é suficiente para iluminar o espirito mais obscurecido, e pode ser compreendida de todo o que sinceramente deseja entende-la. Mas, não obstante isto, alguns que dizem fazer da Palavra de Deus o objeto de seus estudos, são encontrados vivendo em oposição direta a alguns de seus mais claros ensinos. Daí, para que tanto homens como mulheres fiquem sem escusa, Deus dá testemunhos claros e decisivos, a fim de reconduzi-los a Sua Palavra, que negligenciaram seguir.


A Palavra de Deus está repleta de princípios gerais para a formação de hábitos corretos de vida, e os testemunhos, tanto gerais como individuais, visam chamar a sua atenção particularmente para esses princípios”. — Testimonies for the Church 5:663, 664; Testemunhos Selectos 2:279.


A função de Ellen White aqui é exatamente a mesma dos profetas não canônicos do Antigo e do Novo Testamento como Natã (II Sm 12:1-16), Hulda (II Cr 34:18-28), Ágabo (At 11:27-30): conduzir à Bíblia, repreender o afastamento das Escrituras, dar estímulo ao estudo da Palavra e prever eventos importantes para a época. Nenhum desses profetas se tornou canônico ou trouxe uma doutrina essencialmente nova. Todos os seus ensinos eram baseados na Bíblia ou deduzidos diretamente dos princípios da Bíblia. O fato de não serem canônicos não lhes tira a importância. Mas os coloca em seus devidos lugares.


Uma grande preocupação de Ellen White era a tendência de alguns, em sua época, de quererem substituir o estudo bíblico por uma postura “pergunte para a Ellen”. Para alguns, se ela era divinamente inspirada, então qualquer dúvida poderia ser dirimida a partir das palavras dela. White condenou essa postura veementemente:


“O Senhor deseja que estudeis a Bíblia. Ele não deu alguma luz adicional para tomar o lugar de Sua Palavra. Esta luz deve conduzir as mentes confusas a Sua Palavra, a qual, se for comida e assimilada, e como o sangue que da vida a alma. Então serão vistas boas obras como luz brilhando nas trevas”.— Carta 130, 1901.


Outra vez, sobre a função dos seus Testemunhos enfatiza:


“Nas Escrituras Deus expôs lições práticas para governar a vida e a conduta de todos; mas, conquanto Ele tenha dado minuciosas instruções a respeito de nosso caráter, conversação e conduta, em grande parte Suas lições são negligenciadas e desprezadas. Além das instruções em Sua Palavra, o Senhor tem concedido testemunhos especiais a Seu povo, não como uma nova revelação, mas para que possa apresentar-nos as claras lições de Sua Palavra, a fim de que sejam corrigidos os erros e indicado o caminho certo, para que toda alma fique sem escusa”. —Carta 63, 1893. Ver Testimonies for the Church 5:665.


E Ellen White fez isso muito bem. Através de seus escritos, ela chamou a atenção dos líderes para um estudo mais cristocêntrico da Palavra, para a divindade de Cristo, para a divindade do Espírito Santo, para a importância da doutrina da justificação pela graça mediante a fé, para a relevância da reforma da saúde, etc. Todas essas coisas podem ser achadas na Bíblia? Sim. Então, para quê Ellen White? Porque quando as pessoas não estão, por si próprias, investigando pontos importantes nas Escrituras (os quais Deus quer enfatizar, relembrar e/ou resgatar), o Senhor usa profetas para expor esses temas, enfatizar determinados pontos, estimular a pesquisa e, por fim, levar de volta o povo à Bíblia.


Essa é a obra do profeta não canônico. Foi isso o que Ellen White fez. E o modo de fazer isso foi bem simples. Ela escreveu sobre temas bíblicos, enchendo suas páginas de referências nas Escrituras, a fim de que fôssemos lá nas passagens. Assim ela despertou interesse em pesquisas, reuniu textos bíblicos de cada tema e expôs temas sob ângulos que fizeram as pessoas pensarem ou repensarem ideias e posturas, instigando-as a mergulharem em pesquisas. Era isso o que ela almejava. “Irmão, leia isso aqui e vá para a Bíblia. A Bíblia é a fonte. Só estou apontando”.


A respeito do Espírito Santo que ilumina a mente dos profetas canônicos e também não canônicos, White pontua:


“O Espirito não foi dado—nem nunca o poderia ser — a fim de sobrepor-Se a Escritura; pois esta explicitamente declara ser ela mesma a norma pela qual todo ensino e experiência devem ser aferidos. … Isaias declara: “A Lei e ao Testemunho! se eles nao falarem segundo esta palavra, não haverá manhã para eles.” Isaias 8:20. — O Grande Conflito entre Cristo e Satanás, 7.


Sobre a autoridade da Bíblia, ela explica e exorta:


“Examinem cuidadosamente as Escrituras para ver o que é a verdade. A verdade não perde nada para a investigação minuciosa. Que a Palavra de Deus fale por si mesma, que ela seja sua própria intérprete. […] Há uma incrível indolência por grande parte de nossos ministros, que estão dispostos a que outros ministros [presumivelmente Butler e Smith] pesquisem as Escrituras para eles. Eles tomam as verdades de seus lábios como um fato positivo, mas não conhecem a verdade bíblica através de sua própria pesquisa individual e pela profunda convicção do Espírito de Deus em seus corações e mentes. […] Muitos se perderão porque não estudaram a Bíblia de joelhos com fervente oração. […] A Palavra de Deus é o grande detector do erro; cremos que devemos recorrer a ela em todas as questões. A Bíblia deve ser nosso padrão de toda doutrina e prática. […] Não devemos aceitar a opinião de ninguém sem antes compará-la com as Escrituras. Eis a autoridade divina que é suprema em assunto de fé” (EGW aos Irmãos, 5 de Agosto de 1888).


Alertando novamente sobre alguns ministros que pareciam se colocar como autoridade suprema em alguns assuntos dentro da congregação, White diz: “Meu apelo tem sido: Investiguem as Escrituras por vocês mesmos. […] Nenhum ser humano deve servir de autoridade para nós” (EGW a WMH, 9 de Dezembro de 1888).


Numa sábia exortação sobre os riscos de não se manter um constante estudo das Escrituras, Ellen White afirma:


“Como um povo, corremos certamente grande risco, se não estivermos em constante vigilância, de considerarmos nossas ideias, pelo fato de serem longamente acalentadas, doutrinas bíblicas e infalíveis, e medir todos pelo critério de nossa interpretação da verdade bíblica. Este é nosso perigo, e este seria o maior mal que poderia sobrevir a nós como um povo” (Ms 37, 1890).


Entre 1886 e 1888, Ellen White negou categoricamente diversos pedidos do presidente da Associação Geral para que ela solucionasse um problema de interpretação bíblica através de um testemunho. E creu ter sido providencial que um escrito seu sobre o tema em questão tivesse se perdido. Ela expressou: “Deus tem propósito nisto. Ele quer que recorramos à Bíblia e obtenhamos evidência escrituristica” (Ms 9, 1888; itálicos acrescentados). Um ano antes, ela já havia escrito: “Queremos evidência bíblica para todo ponto que defendemos” (EGW a GIB e US, 5 de Abril de 1887).


Sobre o julgamento das doutrinas e ideias defendidas pela Igreja Adventista, ela afirma o seguinte em duas ocasiões:


“Se toda a ideia que temos defendido em matéria de doutrina for verdade, não deve a verdade suportar a investigação? Ela balançará e cairá se for criticada? Se for assim, que ela caia, quanto mais cedo melhor. O espírito que fecha a porta para a investigação cristã dos pontos da verdade não é o Espírito que vem do alto” (EGW a WMH, 9 de Dezembro de 1888).


“O fato de certas doutrinas terem sido mantidas durante muitos anos por nosso povo não é prova de que nossas ideias sejam infalíveis. O tempo não converte o erro em verdade […]. Nenhuma doutrina autêntica é prejudicada pela pesquisa minuciosa” (CWE, p. 35).


“[…] tão-somente Deus e o Céu são infalíveis. Quem acha que nunca terá de abandonar um ponto de vista acariciado, e nunca terá de mudar de opinião, sofrerá decepção” (Ibdem, p. 37).


A respeito da autoridade transformadora da Bíblia, ela diz que “a Bíblia, e a Bíblia somente, entesourada no coração e abençoada pelo Espírito de Deus, pode tornar o ser humano reto e conservá-lo reto” (EGW a GIB e esposa, 11 de Dezembro de 1888)”.


Com todos esses textos, fica claro qual era o pensamento de Ellen White a respeito da posição da Bíblia e de sua própria função. E, por conseguinte, fica claro que o silogismo proposto no início do texto está correto. A essência dos escritos de Ellen White é seguirmos a Bíblia Sagrada e a colocarmos em primeiro lugar. Quando fazemos isso, já estamos seguindo Ellen White, sem nenhuma necessidade de colocá-la numa posição maior do que ela está.


Isso quer dizer que Ellen White não tem valor? De forma alguma. Conquanto White insista que devemos ir à Bíblia como regra, não a ela, também orienta que não joguemos fora os seus testemunhos, mas antes, os julguemos pela Bíblia e os aceitemos. Essa é a postura bíblica, aliás. Paulo nos diz: “Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom” (I Ts 5:20-21). Se o nosso compromisso é com a Bíblia (como era o caso de Ellen White), então nossa obrigação é não desprezar o que bons cristãos dizem, sobretudo se são profetas, mas julgar de acordo com a Bíblia. Se é bíblico, aceitamos.


Assim, a postura não deve ser nem rejeitar Ellen White por antecipação, nem aceitar cada um de seus ensinos apenas porque ela falou. É sim considerar seus escritos com boa vontade, analisá-los pela Bíblia (e seguindo as regras básicas de interpretação) e então dar um veredito. Não é a Bíblia que deve ser julgada por Ellen White, mas Ellen White pela Bíblia. Esse é o compromisso que ela lutou a vida inteira para que nós tivéssemos. E essa é a doutrina oficial adventista. A crença 18 das 28 Crenças Fundamentais diz que os escritos de Ellen White “tornam claro que a Bíblia é a norma pela qual deve ser provado todo ensino e experiência. – Nm 12:6; 2Cr 20:20; Am 3:7; Jl 2:28, 29; At 2:14-21; 2Tm 3:16, 17; Hb 1:1-3; Ap 12:17; 19:10; 22:8, 9”. Obviamente, os próprios escritos dela não estão fora disso. E obviamente, se ela realmente foi inspirada por Deus, a análise dos escritos dela provará que estão em conformidade com a Bíblia. Como ela mesma disse, nada se perde quando provamos nossas crenças pela Bíblia.


Equilíbrio é tudo. Se colocar White num pedestal é ir contra a Bíblia, contra a doutrina oficial adventista e até contra ela mesma, por outro lado, rejeitá-la também é mal e por duas razões: (1) se realmente os conselhos de White são bíblicos e inspirados, quem não lhes dá atenção pode vir a não despertar para verdades bíblicas que Deus deseja o despertar; (2) há uma tendência de que ao desprezar White, a pessoa comece a questionar a própria instituição adventista e, posteriormente, as doutrinas da Igreja. Ainda que essas doutrinas não sejam baseadas em visões de Ellen White, mas em estudos profundos da Bíblia, os cérebros costumam a fazer essa associação. É como se um ponto questionado fizesse ruir todos os outros. Por isso, White nos diz para ouvi-la. Não é para usá-la como Bíblia, mas para perceber o que Deus talvez esteja querendo enfatizar e até resgatar em Sua Palavra para a nossa vida. Seus escritos são um meio, não um fim.


Do ponto de vista prático, então, o que fazer? Em primeiro lugar, parar de enfiar Ellen White nos debates teológicos. A não ser, é claro, se o debate for especificamente sobre ela. Afora isso, devemos buscar a Bíblia, provar pela Bíblia, argumentar pela Bíblia, respirar Bíblia.


Em segundo lugar, entender que Ellen White é uma ferramenta, um meio, um canal, assim como devocionais, guias de estudo e livros cristãos em geral. Devemos ler com o intuito de conhecermos mais da Bíblia, de enxergarmos detalhes bíblicos que nunca percebemos, de fortalecer convicções bíblicas. A finalidade é a Escritura. Tudo aponta para ela.


Em terceiro lugar, não devemos usar Ellen White para criar medo e fazer acusações levianas. Perfeccionistas são expert nisso. Devemos lembrar que (1) White escreveu para contextos específicos e (2) as ideias do profeta são inspiradas, mas as palavras são suas. Ou seja, é fácil pegar textos mais duros, escritos para contextos específicos e com palavras fortes para metralhar irmãos. O resultado é a desvalorização da Bíblia, da própria Ellen White e do conselho que se quer dar ao irmão. Por exemplo, na Bíblia há esse texto: “Filha da Babilônia, que hás de ser destruída, feliz aquele que te der o pago do mal que nos fizeste. Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra” (Sl 137:8-9).


Pesado, não é? É um texto que exige um uso responsável, uma análise bem contextualizada e o entendimento de que o autor usa palavras fortes como um resultado de um desabafo, proveniente de uma dor profunda. Um uso irresponsável do texto, no entanto, pode criar um evangelho distorcido, com margem para violência e vingança. E pode ser usado para colocar medo. Não é diferente com Ellen White.


Finalmente, como Ellen White mesmo diz, se queremos convencer as pessoas de que nossas mensagens são bíblicas e verdadeiras, incluindo aí cristãos de outras igrejas, precisamos usar a Bíblia e sermos conhecidos por isso. Enquanto formos conhecidos como aqueles que usam Ellen White, o preconceito será forte e, até certo ponto, justificável. Quando formos conhecidos como o povo que usa a Bíblia, aí não só a Bíblia será valorizada, mas a própria Ellen White, já que a essência de seus ensinos era exaltar a Santa Palavra de Deus.

Reflitamos sobre isso e sejamos mais bíblicos. Nossa doutrina é boa, correta e bíblica. Mas nossos membros têm cometido erros grandes. E isso causa uma péssima impressão tanto para quem está de fora, como para quem está entrando. E é um tiro no pé ter uma líder histórica que escreveu tantas coisas boas que nos levam à Bíblia se tornando, por culpa de membros ignorantes, uma pedra no sapato de quem quer congregar conosco e viver as doutrinas bíblicas.